Teatro Parabelo

Teatro Pirituba Grupo Espaço Intervenção Sonho Ação Resistência Cultura

6

de

maio

O Que Eu Entendi Do Que O Parabelo Disse?

No último dia 24 de Abril, finalizamos a temporada do projeto “O que eu entendi do que o Parabelo disse?” no CEU Vila Atlântica. Ao longo do mês de abril foram realizadas 3 apresentações, com média de público de 20 a 40 pessoas cada.

Divulgação do projeto.

Programa - Cartaz: Divulgação do projeto.

 

 

Durante toda a temporada houve participação maciça dos usuários mais assíduos do CEU: As Crianças, tanto que no final do projeto algumas delas que assistiram a todas as apresentações, explicavam as regras do debate ao restante do público. Isso nos fez lembrar que em outras apresentações de “Fando e Lis – ou Mais uma História de Amor” foi imposto pela Gestão Cultural do CEU Vila Atlântica uma censura de 14 anos, mas que dessa vez – devido à ausência do CEU no acompanhamento do projeto – não houve censura, uma vez que entendemos que as cenas de violência e semi nudez apresentadas na peça não estão distantes da realidade dessas crianças.

 

A Gestão Cultural do CEU Vila Atlântica manteve-se distante da execução do projeto. Tínhamos contato apenas com o segurança que abria o espaço e o técnico de iluminação que sempre trazia a mesa de luz. Tal ausência se evidenciou na última apresentação quando algumas pessoas chegaram um pouco antes do horário, e teriam ficado na chuva, não fosse a preocupação de uma integrante do grupo em resolver o problema e acompanhá-los até uma área semi coberta, uma vez que não havia nenhum segurança próximo e a porta do Foyer estava trancada.

 

Em geral durante a divulgação que foi feita previamente nas escolas do entorno e na unidade escolar do CEU Vila Atlântica (visitas monitoradas), devido ao fato do projeto acontecer durante o horário de aula, encontramos resistência por parte de alguns professores e/ou coordenadores em relação ao mesmo, eles alegavam: “Cultura não faz parte do dia-a-dia deles, eles não vão querer ir!” ou “Esses alunos só gostam de GLS – Giz, Lousa e Sentar”. Mesmo assim, no dia 17/04, alunos da Unidade Escolar do CEU que estavam interessados em participar do projeto, se organizaram e convenceram uma professora. Neste dia a sala toda compareceu a apresentação.

 

As leituras do espetáculo feitas pelo público foram as mais diversas, mas sempre as pessoas relacionavam as questões de “Fando e Lis – ou Mais uma História de Amor”, com situações de seu cotidiano: amigos que brigam por causa de uma namorada, famílias que saem em busca de diversão, mas não entram num acordo e nunca encontram o Parque (associação à viagem que os personagens fazem rumo à Cidade de Tar); dependência mútua; falta de solidariedade e individualismo, entre outros*

Finalização do projeto

Foto: Finalização do projeto

 

 

“O que eu entendi do que o Parabelo disse?” foi um projeto de mediação teatral, através do qual dialogamos com o público, abrindo espaço para que manifestassem suas subjetividades e expressassem suas idéias sobre o espetáculo, expondo suas opiniões através de imagens artísticas, tornando a relação entre público e ator cada vez mais horizontal.

 

Entrar em contato novamente com a comunidade do CEU Vila Atlântica nos fez reafirmar o quanto uma ação de formação de público contínua é importante, para que as pessoas tenham contato com imagens, sons e sensações, que vão além do seu cotidiano, e que possam se reconhecer como criadoras. E exijam uma programação de qualidade no CEU, para que tenham assegurado o seu direito à cultura e lazer.

 

O projeto afirmou nossa condição de resistência, como grupo atuante em nossa comunidade, na busca pelo respeito aos moradores e pela valorização das manifestações artísticas da periferia.

 

* Vide vídeos: www.youtube.com.br/teatroparabelo

 

Por Thalita Duarte

 

19

de

abril

Brainstorm and happy birthday to you

Estreou no último sábado Abatedouro, um experimento cênico livre inspirado no texto Matadouro Municipal de Tennessee Williams. Entramos em contato com o texto pela primeira vez em 2004 e resolvemos tirá-lo da gaveta para, através dele, propormos um projeto de ocupação para o Espaço Teatro Parabelo.

Estreia "Abatedouro" no espaço Teatro Parabelo

Estreia "Abatedouro" no espaço Teatro Parabelo

 

 

A partir de núcleos abertos à participação da comunidade, entre Março e Abril, improvisamos lançando mão de elementos presentes na Estética do Oprimido, sistematizada por Boal e também do uso de mídia áudio visual. Nesse momento do processo, estamos experimentando a contaminação da dramaturgia através da colagem de outros textos – como por exemplo o uso de trechos do Livro de Jó,  de Luis Alberto de Abreu.

 

A estréia do experimento foi à primeira apresentação teatral  feita no Espaço Teatro Parabelo, e para nossa surpresa, contou com um a presença de um grande público –  não só em termos quantitativos mas, acima de tudo, qualitativos : pessoas interessadas em dialogar com a produção artística periférica de peito aberto, sem medo de ser provocada e de nos provocar, vide às inúmeras colocações feitas ao término da sessão.

 

“(…) Tem muitos focos!”, “(…) Na tv, vocês passam muitos exemplos de Abatedouro né? (…)”, “(…) Abram as janelas! (…)” , “(…) Pra que a corda? (…)”, “(…) É muita violência (…)”, “(…) Achei que a porta ia cair (…)”, “(…) Eu não sabia pra onde olhar (…)”, “(…) Não tem saída, só a arte (…)”, “(…) eu não levantei por que não dá pra mudar!(…)”, “(…) Me dá uma cópia do texto?(…)”, “(…) Muito boa à peça viu tio? Quando tem mais? (…)”, “(…) Eu não entendi a metáfora da gaiola (…)”, “(…) Fala de mudança (…)”, (…) Vocês tem o que dizer (…)” , “(…) Meu Deus! (…)”, (…) Vocês são jovens e tem força eu fiquei muito feliz de ter vindo aqui (…)”, “(…) Reinaldo Maia colocaria essa gaiola na cabeça (…)”.

 

Mesmo sendo um brainstorm com ares de ensaio geral, fiquei muito intrigrado com o estado em que o público estava – como se todos estivessem tentando organizar as peças de um quebra cabeças na busca de um sentido.

Estreia "Abatedouro" no Espaço Teatro Parabelo

Estreia "Abatedouro" no Espaço Teatro Parabelo

 

 

Por outro lado, ali estávamos nós, na véspera de mais um aniversário, constatando como dia após dia fazer do teatro uma arma de resistência faz cada vez mais sentido. Como um espaço modifica não só as condições e as relações de trabalho mas também a relação com o público – tudo ficou mais dialógico, menos tênis e mais freescoball, como diria Rubem Alves.

 

Outro aspecto que só ontem me dei conta é que ali em cena está tudo e todos que impregnaram o nosso jeito de fazer e pensar teatro – tudo ao mesmo tempo agora, mais uma vez, o brainstorm.

Acho que foi o Fernando Peixoto quem disse que os ensaios só começam de verdade quando as cortinas se abrem – concordo.

 

Por Diego Marques

 

 

 

18

de

abril

Sobre aqueles que não deviam ir e aqueles que vão ficar

Reinaldo Maia (1952- 2009)

Reinaldo Maia (1952- 2009)

Eu não sabia quem era Reinaldo Maia até o dia em que o mesmo se apresentou a mim – e o fez por meio do documentário “O Que é Teatro?”, no qual o dramaturgo fez a referida pergunta para alguns dos principais expoentes da cena teatral contemporânea e conseqüentemente para os espectadores do vídeo.

 

Na época  o Teatro Parabelo encontrava-se no inicio de uma articulação com outros jovens fazedores de teatro, de realidades próximas a nossa com o intuito de pensarmos em pra quem fazemos teatro, assim sendo, nos pareceu muito pertinente aprofundarmo-nos na reflexão lançando mão do vídeo produzido pelo Maia como provocação. Foi assim que nasceu a rede Chegança e também que conheci Reinaldo Maia – que para o meu espanto já nos conhecia.

 

Duas semanas antes de entrarmos em contato solicitando autorização para exibição do documentário, ele já havia publicado em seu Blog  a carta inaugural do movimento junto do seguinte comentário:

 

“A publicação do Manifesto do Chegança tem a intenção de abrir os olhos e as mentes dos participantes do Movimento de Teatro de Grupos de São Paulo assim como do Redemoinho para essas novas organizações que surgem reivindicando a cultura, em particular o Teatro, como um direito, mas ao invés de ficarem esperando de braços cruzados saem a luta para discutirem, produzirem e reivindicarem políticas públicas que contemple suas reivindicações. E diferentemente dos movimentos surgidos na cooperativa, esse está ligado a comunidades que não têm acesso ao bem simbólico e estão situados na “franja” da cidade. Isto é, sofrem todo tipo de excludência e de ausência do aparelho do Estado seja por parte do Município, do Estado e/ou da União. O fato de estarem ocupando um Céu, não quer dizer que têm uma vida cultural como todos os cidadão tem direito.”

 

E  se me espantei, não foi por razões egoicas. Espanta-me  a coerência  e a sensibilidade – o cara conseguiu ouvir aquilo que nós ainda não havíamos, de fato, gritado, e foi além, preocupou-se em fazer o que estava por ser dito, ouvido.

 

No último post de seu blog  ele dissertou:

 

“Dizia o Nietzche que –“ o outro lada da moeda da moral do senhor ainda é a moral do senhor”. Ele dizia isso para alertar ao escravo que, se desejava lutar contra o seu explorador, tinha de criar uma nova moral, não bastava apenas fazer o contrário para ser “verdadeiro”. Essa máxima nos faz pensar um pouco como se dá a luta política por parte daqueles que tem um fraco entendimento de sua prática”

 

E como bom sábio que foi, fez da sabedoria, atitude. Dedicou uma vida para nos alertar sobre a urgência de libertar o homem, o teatro (e o homem de teatro) da condição de mercadoria e voltarmos a sermos sujeitos de nossa história – foi o que aprendemos com algumas pessoas, dentre elas, o  Maia.

 

Hoje a rede Chegança não está burocraticamente tão organizada quanto aquela que chegou a trocar e-mails com o Dramaturgo – que,  por um capricho do cotidiano, não pode estar presente na mesa organizada pela rede. Entretanto, é inegável que as ações dos grupos que a compõe estão mais fortalecidas uma vez que a Cia Humbalada, o Teatro Parabelo e o Identidade Oculta, ao reduzirem-se a sua mínima grandeza  estão procurando (como o próprio frisou na citação acima) não “apenas fazer o contrário para ser verdadeiro” mas ao estreitarmos os laços do nosso teatro com o nosso local de origem, estamos buscando criar a nova moral, a nossa moral, preconizada  por Reinaldo Maia.

 

Digo isto, pois, penso que a melhor homenagem que qualquer fazedor de Teatro comprometido com o mesmo e com seu tempo espaço pode fazer ao dramaturgo do Folias, é não se dar por vencido, é resistir para que, o esforço daqueles como Reinaldo Maia, não tenha sido em vão, para que Rounets sejam extintas, Programas de Fomento Nacional ao Teatro sejam criados, para que espaços sejam inaugurados,  saraus sejam organizados, fomentos sejam concedidos a grupos das extremidades da metrópole pelo mérito artístico; sem que sejam questionados por  pseudos agentes culturais,  pseudos artistas engajados e sua corja.

 

Que não deixemos a lembrança de Maia ir, para que ela nos inspire a continuar.

 

Por Diego Marques

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16

de

abril

O Caminho do Abate

Às 06:00 horas ecoa o berrante; o som reverbera nas gorduras do meu corpo – ele não consegue levantar. O berrante continua a me dizer o que tenho que fazer, mas meu papo e meu bucho insistem em estrebuchar-se num lençol fétido. Não diferencio mais a buzina do mugido, sinto minha massa encefálica lentamente ser fatiada por um cortador de frios. Gordo, não consigo levantar-me, portanto, esparramo meu peso sob minhas patas tortas e cansadas. Já não caminho, arrasto-me ou sou arrastado, provavelmente aprendi a deixar-me arrastar.  Há alguns anos tenho sentido uma corda firme e grossa presa em alguma parte de mim. Talvez na cabeça, talvez no coração.

 

A corda dá um tranco. O berrante ordena. Subo no carro de boi. Alguns tentam manterem-se de pé, outros dormem. São muitos, milhares,  eu diria. Berrante. Todos grandes, gordos e inofensivos. Trânsito engarrafado. Bois. Berrante ensurdecedor. Pela vidraça vemos carnes penduradas em vitrines, estou certo de que não poderei comprar mais que 1ou dois 2 kg. Berrante zunindo. Meu pensamento é interrompido, uma vaca velha e suja me oferece uma lata de sangue de boi gaseificado. Minha boca saliva, o carro dá um tranco e a baba homogênea escorrega. O berrante ocupa todos os espaços vazios da cidade, do meu corpo.

 

O  cheiro de sangue invade minhas ventas. Confundo mugido e buzinas. O carro para. O berrante volta a dizer o que devo fazer. Os bois disparam. O berrante repete. A corda estica. Sono e náusea. Quase despenco no chão. Risadas. Machadadas. Trituradores. Laminas. Acordo. Eles tornam as coisas mais difíceis se você chega atrasado. Eles demoram a acabar com tudo.

 

Por Diego Marques

 

30

de

março

Um pouco de quântica

Para compor os àtomos de nossa matéria em transformação, a magia do teatro, vamos ao núcleo de cada uma destas partículas.

Desta vez, escolhemos Tennesse Williams e Augusto Boal para estimularem as reações químicas de nosso experimento teatral e daí surgiram os “Auto-móveis”

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

“Auto-móveis” é a denominação  dos núcleos em pesquisa, que irão gerar a matéria prima “Abatedouro” livre adaptação do texto “O Matadouro Municipal” de Tennessee Williams através dos recursos do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Estes núcleos destrincham o texto original a partir de uma leitura dramática e das técnicas do Teatro Jornal, Teatro Imagem, Teatro do invisível e Teatro Fórum.

Desse modo a união da energia de cada núcleo é direcionada para a criação de um produto final- matéria física e metafísica do teatro.

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

     

Da física temos: corpo, voz, imagem, texto, luz, som, sombra, suor, lágrima…

Da metafísica: idéias, conceitos, visões, debates, comunhões, sentimentos…

Declaramos assim, aberta a temporada de pesquisa e criação no Espaço Teatral Parabelo. E viva os prótons, elétrons, nêutrons e afins!

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Por Denise Rachel

26

de

março

A metrópole e o Teatro

Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

 

Espaço.  O Espaço agora existe, é palpavél, é concreto,  cheiro, cor, poeira, TABLADO! O sonho que irá gerar tantos outros possiveís e impossiveís. Talvez seja essa a natureza e a finalidade da arte teatral: tornar palpavél os sonhos.

 Enquanto isso, São paulo (DESGRAÇA!) Lá fora. Sim! ” (…) Isso aqui é uma, desculpa a palavra, desculpa você, você e você, mas São Paulo é uma DESGRAÇA! (…)”  palavras de desespero de um morador de rua, na madrugada de uma segunda feira pós show do Radiohead. “(…) Olha esse prédio por fora. Bonito né? Agora vai entrar nele, aí você ve a rachadura”  Palavras ecoando no viaduto Nove de Julho.

 Tantos paradoxos em um único local, tanto prédios, casas, construções com belas fachadas, mas todos rachados por dentro. O Mundo de aparências de Platão, o mundo de aparências segundo a filosofia oriental. O mundo de aparências dita e destrói regras, o mundo de aparências embala tudo a vácuo, esvaziando qualquer possibilidade de respirar. Um mundo congelado, triste, com sorrisos estampados e um olhar vazio - choro e ódio que não param de escorrer por dentro.

São Paulo é plástico, duro e cinzento - imperfeito.  Plástico aço, Plástico ácido. Recipiente quase inesgotavél de embalagens plácidas, quase ínuteis.

Leitura Dramática Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Leitura Dramática Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Diante disso, alcançar os sonhos se torna um ato heróico. Diante disso, o Teatro vem como uma busca de sentido e se faz sentido. Mesmo assim, será o Teatro a resposta para todos esses eventos? Poderá esse dissipar a paralísia? Irá atenuar o vazio que assombra nossos pensamentos diariamente?

Talvez Teatro, em tempos de guerra seja destruir com todas as forças a imensa e não tão distante fábrica de aparências, tomar de assalto os embaladores, bombardear as ruínas que ainda restam…

Por Denise Rachel

 

14

de

março

Sobre meninos e lobos

 

Na última sexta feira 13 demos inicio ao projeto O Que Eu Entendi Do Que O Parabelo Disse?, que por sua vez era uma das ações do projeto (Des) Montando Arrabal mas que ganha vida própria por se revelar como uma poderosa ferramenta para horizontalizar a relação entre palco e platéia, artista e público.                                               

 O projeto, apoiado pela IV Edição do Prêmio Aprendiz Comgás, tem como público alvo os alunos da Escola de Jovens e Adultos (EJA) do CEU Vila Atlântica e do seu entorno, além da comunidade local.

 

Durante a estréia pudemos nos debater com uma  questão que, aparentemente, permeará todo o projeto: o público alvo.

 

Teatro Parabelo

Fando e Lis ou Mais Uma História de Amor Foto: Teatro Parabelo

 

O projeto consiste na apresentação do espetáculo Fando e Lis ou Mais Uma História de Amor mediante a realização de um debate ao término do mesmo. Para tanto, optamos pelos alunos do EJA como público alvo, pois, como a ação visa à formação de platéias e entendemos esses jovens e adultos como potentes vinculadores de informação  dentro da comunidade, cremos que eles possam contribuir para com a sensibilização da comunidade, para que esta venha ocupar e fruir do espaço público, no caso, o CEU Vila Atlântica.

 

No entanto, na sua implementação, o projeto passou por alterações logísticas, saindo de um amplo teatro para uma sala mais intimista que muito contribui para com o espetáculo, porém, dificulta o alcance do seu público alvo, pois,  ao se tratar de um espaço físico menor, dificilmente este conseguiria acomodar uma sala de aula com mais de 30 alunos, e  uma vez que, o projeto acontece às sextas feiras durante o horário de aula, a inclusão do espetáculo no plano de aula do professor, seria um facilitador para a ação. Mas por que tem que ser fácil?

 

Esse cruzamento de horários, acabou por nos fazer questionar um aspecto fundamental ao lidarmos com a formação de público e platéias: o aspecto cultural – Pra quê ir ao Teatro? Por que ir ao Teatro? E mais – Qual o papel do educador nesse processo?

 

Ou seja, ir ao teatro como uma atividade escolar, seja esta extra curricular ou não, nos parece menos interessante  do que ir ao teatro espontaneamente, no pleno exercício de seu livre arbítrio. Faltar à aula para ir ao Teatro? Mas as escolas não suspendem suas aulas durante os jogos da seleção na Copa do Mundo? Não faltamos aos nossos compromissos, sem a menor cerimônia, para acompanhar o último capitulo da novela das oito, ou sua versão pós-moderna, o Big Brother?

 

Assim sendo, colocar essa questão ao aluno do EJA, estimulá-lo a fazer uma revisão de nossos valores culturais parece ser, por si só, um detonador de questões pertinentes  não só ao educando, mas também a instituição de ensino: como entender a ausência de um aluno que, a priori, decide ir ao Teatro, entrar em contato com a produção artística local, e ter a oportunidade de participar artisticamente de um debate sobre tal experiência? São questões que os outros EJAS que receberão as visitas monitoradas de divulgação do projeto, poderão nos ajudar a reverberar.

 

                                                         

 

Teatro Parabelo

Estreia O Que Eu Entendi Do Que O Parabelo Disse? Foto: Teatro Parabelo

 

 

Em contrapartida, eis que,  novamente ela/ele surgem como público cativo de nossas ações no CEU Vila Atlântica: a criança e o adolescente. E outras questões emergem: como lidar com este público com uma temática adulta?  Fomos além: o que seria uma temática adulta para aqueles que já vivem todas as ausências,  marginalizações, violências e opressões típicas do mundo, dito, de adultos?  Mais uma vez, o cerne da questão parece ser a inversão/revisão de valores, mas dessa vez, especialmente de nossos valores enquanto artistas, agentes culturais, educadores e por que não, cidadãos.

 

Acreditamos que na periferia do extremo oeste do município de São Paulo, o conceito de criança e adolescente não pode ser o mesmo que nos jardins, bairro nobre da mesma metrópole. Em outras palavras, o que choca uma criança nascida no Hospital Albert Eisnten não é o mesmo que choca uma criança nascida, às vezes, na ambulância que não consegue chegar a tempo ao pronto socorro mais próximo. Quando nascem.

Teatro Parabelo

Estreia do O Que Eu Entendi Do Que O Parabelo Disse? Foto: Teatro Parabelo

                        

E se chego a tal conclusão, não é pautado em outra coisa, senão, na participação destes ao longo do espetáculo: se um ator pergunta a um espectador, convidado a ir ao palco,  o que ele quer ser quando crescer e ele diz, no auge de seus 15 anos, não sei - O que irá chocá-lo? Se nesse mesmo momento um outro espectador, sentado na platéia, sugere: prostituta! eu novamente me pergunto: O que irá chocá-lo? - uma jovem atriz que, ao interpretar uma personagem que ao se sentir usada como um objeto, despe seu colo e se carimba com um código de barras?

 

Creio que não, pois ao assistir a cena acima descrita, um outro grupo de espectadores, ainda mais jovens, associa o som e a imagem do código de barras com um comercial de TV, de uma  popular  marca de refrigerante e, em coro, a cada vez que atriz  sadicamente se carimbava, eles diziam: aprovado. (e que se considere aqui não só o significado da palavra e se leve em conta à associação feita pelos espectadores)

 

Logo, nossa censura não pode ser a mesma daqueles que ainda carregam no seio de seus valores morais e éticos os mesmos conceitos dos censores de uma não longínqua ditadura militar. Não podemos negligenciar aqueles que talvez não sejam alunos do EJA mas sem sombra de dúvidas são alunos de uma outra escola, para muitos, menos importante, uma tal de vida.

Teatro Parabelo

Cartaz Design Gráfico: Teatro Parabelo

 

Ps: Março é o mês de aniversário do nosso blog, que seja o segundo, de muitos!  E os peões da casa própria continuam girando e ralando, logo,logo, novidades!

 

 

Por Diego Marques

1

de

fevereiro

O sonho da casa própria

Saulo Ferreira

Foto:Saulo Ferreira

 Provisória ou fixa, uma sede dá a chance para os atores se integrarem, dividirem figurinos, palco, luzes e discussões. Um espaço próprio ajuda também a formar um público e permitir o envolvimento da companhia na busca por uma identidade de linguagem e estética. Esse é o sonho de muitos artistas, mas poucos realmente conseguem concretizá-lo. Mesmo assim, apesar da política cultural ser complicada no país, eles têm lutado para reafirmar a importância da criação de um ambiente de trabalho. 
                                   Por Natália Marques em reportagem para o Site UOL

                                              

 Não preciso dizer que a reportagem citada acima caiu como uma luva para o Teatro Parabelo, pois, desde o final do ano passado, haviamos percebido que um espaço físico se fazia necessário para dar cabo das questões organizacionais do coletivo, uma vez que o espaço público no qual vinhamos ensaiando ao longo dos últimos dois  anos  (leia-se CEU Vila Atlântica) não dá conta do armazanamento do material de todos os artistas que produzem em suas dependências.

 Assim sendo, começamos a nos questionarmos a respeito da utilidade de um espaço que serveria, a priori, apenas para acomodar as nossas quinquilharias. Depois de muito remoermos a questão, nos parecia claro que, para fazer jus ao seu cu$$$to benefício, este lugar também deveria servir de espaço para ensaio.

 Porém, novamente nos vimos numa encruzilhada : não nos parecia sábio abrir mão de um espaço onde vinhamos construíndo um trabalho de formação de público e platéia (através de peças, debates, exposições, intervenções e oficinas ) cujo qual já podemos perceber os singelos, porém, bonitos e eficazes resultados. 

 Em contrapartida, a possibilidade de administrar um espaço onde possamos nos engajar para a oferta não só de espetáculos teatrais, mas também, de um espaço para a pesquisa e a reflexão acerca do fazer teatral, parece fazer jus a nosso perfil, já ressaltado, de agentes culturais (”vocês são péssimos artistas! mas ótimos agentes culturais..”, ouvimos certa vez. risos.)

  Além disso, um espaço também ofereceria mais praticidade e flexibilidade para os ensaios do Teatro Parabelo, algo importante para um coletivo cujo atual formação foi recentmente ameaçada pelas cobranças de um sistema que, muitas vezes, não nos deixa outra alternativa de sobrevivência senão a dita ‘inserção’ no mercado formal de trabalho - e é claro que estou falando aqui de jovens na faixa dos 20 anos, moradores da periferia do principal centro mercantil da América Latina, caso contrário, longe de nós trabalharmos 8 horas por dia (quando arrumamos emprego) para pagarmos o curso de artes cênicas a noite (sim, eu sei existe Prouni, USP, e blá, blá,blá mas quem vai pagar as contas aqui em casa?) e agora - tchã tchã tchã - também o aluguel de um espaço!

É por essas, e outras, que ainda nos encontramos nessa angústia entre o espaço público e o privado, ops, quis dizer locado. risos.

Mas vale ressaltar, que, desse qui pro có inaugural de 2009, já pudemos tirar algumas boas conclusões, à saber:

 1 - Ensaiar num espaço locado com todas as suas regalias não significa, necessariamente, abrir mão do trabalho inciado no CEU Vila Atlântica - tanto é que nosso próximo processo criativo se desenvolverá lá em conjunto da comunidade do entorno.

2 - Locar um espaço nos traz a possibilidade de ampliar esse trabalho de formação de público e platéia dentro do bairro, além de possibilitar que possamos pesquisar e experimetar teatro de maneira mais autônoma e emancipada, uma vez que não teremos nenhuma restrição de horário, material, etc.

3 - Diante do contexto histórico e social, infelizmente, é natural que tenhamos que desembolsar ( o que ainda nem foi embolsado!) para financiar os nossos projetos, mas o que nos acalenta é que, talvez, inciativas como essa possam inspirar aqueles que lutarão para com que a arte e a cultura sejam direitos não só constituicionalizados, mas acima de tudo, assegurados e usufruídos.

 Dessa maneira ….  locamos ?!?!

Por Diego Marques

4

de

janeiro

Trilogia da Emancipação: a dramaturgia do Teatro Parabelo

 Ao lançar um olhar sob a dramaturgia do Teatro Parabelo, me deparo com um fato um tanto quanto revelador sobre o teatro que fizemos - e que, a curto prazo, continuaremos a fazer.

 Desde quando eramos Ladrões de Foco, na criação coletiva “As Aventuras de Alipio em Busca de Claudete Bernadete” (2003), até nosso último texto, “Fando e Lis ou Mais uma História de Amor”  (2007), uma livre adaptação da peça de Fernando Arrabal, posso observar uma temática constante e latente no seio da nossa dramaturgia.   

Saulo Ferreira

Ladrões de Foco (2004) foto: Saulo Ferreira

Seja quando narramos a história de um mineirinho que deixa o interior de Minas Gerais rumo a Rede de Televisão, ou quando, em “Chico Tristeza” (2005),  encenamos a saga de um menino em busca do pai no sertão ou, mais recentemente, quando mostramos um casal que busca uma maravilhosa cidade perdida, percebo, numa perspectiva mais profunda, que estavamos, de modos diferentes, manifestando algo sempre similar.

  Entendo que mais que procurar, buscar, desbravar, essas personagens eram  constantemente movidas por um intenso desejo de emancipação.

    Num momento das imposições dos meios de comunicações ao cotidiano, em outro das influências da seca sob as famílias sertanejas e, por último, da penetração e da perpetuação da lógica do mercado nos relaciomentos afetivos, nossa dramaturgia frequentemente aponta um anseio por indepedência nos mais diferentes aspectos.

Elizabeth Susan

Chico Tristeza (2005) Foto:Elizabeth Susan

     Entretanto, essa busca por emancipação sempre se dá  por meio da negação daquilo que não queriamos - o discurso do mercado proferido pelas mídias, a secularidade da seca no âmago das familias nordestinas a reprodução inconsciente das leis do mercado em nossos relacionamentos afetivos. Ou seja, o que nós não queremos sempre me pareceu claro, mas, afinal: E o que queremos?  Se é que queremos.

  O fato é que esse questionamento tem sido fonte de muitas das recentes discussões do Teatro Parabelo, não só no âmbito do fazer artistíco, mas sobretudo no âmbito de ser  artista. Essa inquietação vem sempre imbuída da idéia de um lugar, seja ele material, espiritual, emocional e mesmo artístico, como por exemplo: Qual é o meu lugar no grupo nesse processo? Precisamos alugar um espaço para depositarmos nosso material? seria esse também um espaço para ensaio?  Que comunidade é essa para quem fazemos teatro?

Saulo Ferreira

Fando e Lis (2008) Foto: Saulo Ferreira

      São questões como essas que tem nos movido a tentar um fazer teatral cada vez mais independente de nossas racionalizações estéticas e burocráticas, emancipado da letárgia e do coorporativismo do funcionalismo público, num esforço contante de nos distanciarmos das imposições do mercado que, por vezes, faz nosssa existência  parecer,por si só, utópica.

     O desejo é que o teatro nos sirva de realejo, através do qual, nós mesmos possamos inventar a nossa sorte, nosso destino - além de milhares, de centenas,  de dezenas de outras histórias.

Por Diego Marques

20

de

dezembro

Ode a Adélia

(Alana saí da sala multi-uso do CEU Paz)

Ator-Integrante – Já vai?

Alana – Já!

Ator- integrante – Não gostou da oficina?

Alana –Tá legal! Mas eu tô com fome vô almoçar…

Ator-Integrante – Ah Ta!…

 (Alana saí saltitante, em seguida da meia e volta e retorna)

 Alana – Tio?

Ator-Integrante- Oi?

Alana – Quando eu terminar de almoçar posso voltar pra oficina?

Ator-integrante – Ixi,faltam quinze minutos pra acabar!

Alana- Ah! Então é melhor eu ficar!

      Diálogo entre Diego, ator-integrante do Teatro Parabelo e Alana participante da oficina de Clown no CEU Paz, Brasilândia Novembro/2008

Denilson vendramini

Caderno (Des)Montado Arrabal foto: Denilson vendramini

 

 

 

No último dia 14 de Dezembro o Teatro Parabelo lançou o caderno (Des)Montando Arrabal. Numa tiragem limitada o caderno se propõe a ser mais que um registro do projeto, a publicação faz uma reflexão a partir de imagens, fatos e relatos sobre o impacto das ações não só nas comunidades e nos espaços públicos por onde passou, mas principalmente na maneira de pensar e fazer teatro do coletivo.

Na tentativa de sintetizar o que o projeto (Des)montando Arrabal proporcionou para o Teatro Parabelo, aos Espaços Públicos e as suas platéias, cito uma escritora brasileira e ouso fazer dessas minhas palavras:

“Não Quero Faca, Nem Queijo. Quero a Fome!”

 Adélia Prado

Por Diego Marques

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