
Reinaldo Maia (1952- 2009)
Eu não sabia quem era Reinaldo Maia até o dia em que o mesmo se apresentou a mim – e o fez por meio do documentário “O Que é Teatro?”, no qual o dramaturgo fez a referida pergunta para alguns dos principais expoentes da cena teatral contemporânea e conseqüentemente para os espectadores do vídeo.
Na época o Teatro Parabelo encontrava-se no inicio de uma articulação com outros jovens fazedores de teatro, de realidades próximas a nossa com o intuito de pensarmos em pra quem fazemos teatro, assim sendo, nos pareceu muito pertinente aprofundarmo-nos na reflexão lançando mão do vídeo produzido pelo Maia como provocação. Foi assim que nasceu a rede Chegança e também que conheci Reinaldo Maia – que para o meu espanto já nos conhecia.
Duas semanas antes de entrarmos em contato solicitando autorização para exibição do documentário, ele já havia publicado em seu Blog a carta inaugural do movimento junto do seguinte comentário:
“A publicação do Manifesto do Chegança tem a intenção de abrir os olhos e as mentes dos participantes do Movimento de Teatro de Grupos de São Paulo assim como do Redemoinho para essas novas organizações que surgem reivindicando a cultura, em particular o Teatro, como um direito, mas ao invés de ficarem esperando de braços cruzados saem a luta para discutirem, produzirem e reivindicarem políticas públicas que contemple suas reivindicações. E diferentemente dos movimentos surgidos na cooperativa, esse está ligado a comunidades que não têm acesso ao bem simbólico e estão situados na “franja” da cidade. Isto é, sofrem todo tipo de excludência e de ausência do aparelho do Estado seja por parte do Município, do Estado e/ou da União. O fato de estarem ocupando um Céu, não quer dizer que têm uma vida cultural como todos os cidadão tem direito.”
E se me espantei, não foi por razões egoicas. Espanta-me a coerência e a sensibilidade – o cara conseguiu ouvir aquilo que nós ainda não havíamos, de fato, gritado, e foi além, preocupou-se em fazer o que estava por ser dito, ouvido.
No último post de seu blog ele dissertou:
“Dizia o Nietzche que –“ o outro lada da moeda da moral do senhor ainda é a moral do senhor”. Ele dizia isso para alertar ao escravo que, se desejava lutar contra o seu explorador, tinha de criar uma nova moral, não bastava apenas fazer o contrário para ser “verdadeiro”. Essa máxima nos faz pensar um pouco como se dá a luta política por parte daqueles que tem um fraco entendimento de sua prática”
E como bom sábio que foi, fez da sabedoria, atitude. Dedicou uma vida para nos alertar sobre a urgência de libertar o homem, o teatro (e o homem de teatro) da condição de mercadoria e voltarmos a sermos sujeitos de nossa história – foi o que aprendemos com algumas pessoas, dentre elas, o Maia.
Hoje a rede Chegança não está burocraticamente tão organizada quanto aquela que chegou a trocar e-mails com o Dramaturgo – que, por um capricho do cotidiano, não pode estar presente na mesa organizada pela rede. Entretanto, é inegável que as ações dos grupos que a compõe estão mais fortalecidas uma vez que a Cia Humbalada, o Teatro Parabelo e o Identidade Oculta, ao reduzirem-se a sua mínima grandeza estão procurando (como o próprio frisou na citação acima) não “apenas fazer o contrário para ser verdadeiro” mas ao estreitarmos os laços do nosso teatro com o nosso local de origem, estamos buscando criar a nova moral, a nossa moral, preconizada por Reinaldo Maia.
Digo isto, pois, penso que a melhor homenagem que qualquer fazedor de Teatro comprometido com o mesmo e com seu tempo espaço pode fazer ao dramaturgo do Folias, é não se dar por vencido, é resistir para que, o esforço daqueles como Reinaldo Maia, não tenha sido em vão, para que Rounets sejam extintas, Programas de Fomento Nacional ao Teatro sejam criados, para que espaços sejam inaugurados, saraus sejam organizados, fomentos sejam concedidos a grupos das extremidades da metrópole pelo mérito artístico; sem que sejam questionados por pseudos agentes culturais, pseudos artistas engajados e sua corja.
Que não deixemos a lembrança de Maia ir, para que ela nos inspire a continuar.
Por Diego Marques