Teatro Parabelo

Teatro Pirituba Grupo Espaço Intervenção Sonho Ação Resistência Cultura

20

de

junho

Teatro, Performance, intervenção, Revolução, Insurreição, Levante

    

O Que É Comunidade? Seminário

O Que É Comunidade? Seminário

 No último dia 23 demos início ao projeto ” Realejo- o lugar que desejo” partindo em busca do conceito de Comunidade, através da discussão gerada pelo seminário “ O que é Comunidade? ” mediado pelo Douglas Alves, tive meu castelinho de conceitos posto abaixo, uma vez que compreendi que na verdade a “Comunidade” não existe, é fruto da imaginação. Um conceito que foi criado, justificando algum tipo de identidade em comum entre as pessoas, mas que na verdade, não existe, e que é usado como ferramenta para a massificação, alienação e manipulação, dentro do sitema capitalista.

Os Sentidos da Utopia - Vdeo-Palestra

Os Sentidos da Utopia - Vídeo-Palestra

Através da Vídeo-Palestra “Os Sentidos da Utopia” com Iná Camargo Costa, refletimos sobre o fazer artístico como uma forma de propor mudanças na sociedade. Iná coloca a questão das crises financeiras, que estão se tornando cada vez mais frequentes e aponta as mesmas como possibilidade para mudança do sistema, uma vez que o consumo se tornou tão desenfreado, que os bancos emprestam dinheiro que ainda não existe, e devido a inadimplência acabam quebrando.

  No dia 24, promovemos um debate no CEU Vila Atlântica sobre a formação do nosso bairro, pra onde - sob o slogan ” Brasil o país do futuro”- muitos nordestinos migraram em busca da modernidade que prometia melhores condições de vida, e que aqui se tornaram apenas funcionários.

  Ainda no dia 24, a Denise mediou um debate sobre ” Zonas Autônomas Temporárias”. Trata-se de um conceito criado por Hakim Bey que denomina o ato criativo/lugar de subversão da realidade, onde é possível tornar a criação artística uma intervenção concreta no cotidiano.

  E para subverter a realidade, tranformar o nosso mundo em um lugar mais justo, no sentido em que possamos ter a liberdade de escolha, possamos exercitar a nossa criatividade, expor o nosso subjetivo e torná-lo objetivo, devemos criar a nossa T.A.Z. e fazer levantes contra isso tudo, não deixando que o cotidiano acabe engolindo também nossa esperança.

          

                                                                                                                                              Thalita.

21

de

maio

Reflexões sobre o lugar

No próximo sábado, 23/05 o Teatro Parabelo dá inicio ao projeto Realejo –  O lugar que desejo, contemplado pela edição de 2009 do Programa Para Valorização de Iniciativas Culturais – VAI.

 

O projeto nasceu de um olhar lançado sob o repertório do coletivo através do qual diagnosticamos uma constante: em todos os nossos os nossos espetáculos tratávamos da procura de algo, alguém ou de um lugar – nesse mesmo momento havíamos percebido que se quiséssemos manter alguma estabilidade em nosso fazer teatral tínhamos que manter um espaço de trabalho.

 

Outro ponto interessante, é que depois da montagem de Fando e Lis ou Mais Uma História de Amor, embarcamos numa  apolínea egotrip na qual questionamos o lugar de cada integrante do Teatro Parabelo: como organizar o fazer teatral coletivamente? Como equalizar as vozes dentro de um coletivo artístico? Qual lugar cada um ocupa dentro do grupo? Qual a qualidade desse lugar: ele é estático ou móvel? Em ultima instância: precisa haver um lugar?

 

Dessa maneira, Realejo – o lugar que desejo também nasceu de uma outra vontade: de embarcar dionisiacamente nessa reflexão de modo em que todos pudessem estar em todos os lugares do fazer artístico ao mesmo tempo, e quando digo todos, me refiro a um todo especial: o projeto consiste numa série de ensaios abertos à comunidade onde todos proporão cenas e intervenções a partir da dramaturgia, das mídias audiovisuais e da performance, dessa forma, todos participarão da criação daquilo que não se sabe se será um espetáculo.

Milene Valentir

Arte Gráfica: Milene Valentir

 

 

Se nos atentarmos a palavra comunidade, uma outra esfera de lugar emerge permeando o projeto e é justamente nesse ponto que, neste momento, concentraremos nossa pesquisa: no conceito de comunidade.

 

O Ciclo de estudos Reflexões Sobre o Lugar acontecerá nesse próximo fim de semana em três pontos do bairro quase que simultaneamente: Biblioteca Brito Broca, CEU Vila Atlântica e no Espaço Teatro Parabelo. Três lugares que procuraremos articular ao longo do projeto, promovendo o diálogo entre o espaço público e a produção artística local – uma vez que nessa fase do projeto contamos com a participação do já tradicional (no melhor sentido do termo) Elo da Corrente que fez do Bar do Santista mais um espaço para criação e reflexão artística dentro da comunidade.

 

É através dessa convergência de lugares e pessoas que o Teatro Parabelo espera nos próximos oito meses realizar aquele que, em suma, parece ser o nosso maior desejo: colaborar para com a construção de uma sociedade mais democrática através do Teatro, garantindo o acesso e a fruição das artes, sobretudo do Teatro, para que através deste possamos ser sujeitos de nossa própria história.

 

Por Diego Marques

18

de

maio

Desemformance

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

 

 

 

No último sabádo aconteceu o Desemformance, um encontro de perfomance no Espaço Teatro Parabelo através do qual pudemos dialogar com a linguagem que tem contaminado o projeto de pesquisa Experimentos – processo para autonomia criativa do ator. O projeto tem  como ponto de partida o experimento cênico “Abatedouro”  por meio do qual levantamos conceitos que serão aprofundados ao longo dessa pesquisa.

        

IMPRESSOS

 

A morte pela rotina

A potência da máquina

A Fragilidade humana

Take it da minha cara

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

 

 

 

Briga pela dominação

A corda caiu

A Gravata é a corda

Ele é seu escravo agora

Ele é o seu bichinho

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

 

 

 

Continuação da alienação

A falta da identidade

Anulação

Pela Rua

Na sarjeta

Medo

Desafio

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

 

 

 

Reação

Compre-me

Estou a venda

Pegue meu telefone

 

ELIANE ANDRADE

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

 

 

 

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

     

Pavimento = Estrada = Bifurcações

 

 

Dionisíaco x Apolíneo. Corpo Real x Corpo Social. Interpretação x Não Interpretação. Apresentação x Acontecimento. Palco x Rua. Espectador x Experimentador. Ator x Performer. Verbo x Imagem. Estudo x Pesquisa. Corpo Natural x Corpo Cultural.

 

Pavimento = Estrada = Bifurcações

 

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

Desemformance (Espaço Teatro Parabelo)

12

de

maio

Sobre o lugar que desejo

Sobre o lugar que desejo

 

 

Lugar buscado.

Lugar desejado ,

Lugar que buscamos ser alcançado.

 

Nosso Parabelo, nosso espaço. Aqui fazemos nossa sorte, que ninguém pode fazer por nós,  a não ser nós mesmos.

Eliane Andrade

Eliane Andrade

 

 

Em quatro anos de Teatro Parabelo , essa é a segunda vez em que somos contemplados pelo VAI (Programa para Valorização as Iniciativas Culturais).  Conquistas como essas são motivadoras! É como se um filme passasse rapidamente, e visse o que planejávamos anos ou meses antes, e hoje vejo que  realidade chegou , não por mágica, mas por escolhas que fizemos -somos um grupo de Pirituba, temos um espaço onde podemos trocar idéias, dialogar com outras realidades, outros coletivos, outras pessoas e não no sentido de sermos catequisadores, mas sim de trocarmos e discutirmos inquietações artísticas. Nosso lugar desejado. E  com o apoio do VAI, vejo que cada vez mais estou perto de ver o lugar que desejo: ver todos os que tem vontade de dizer algo, os lugares públicos sendo ocupados por gente tem desejo de compartilhar a história de seu lugar e transformá-la em arte ou vê-la por meio da arte. Ver todas nossas dimensões humanas sendo trabalhadas: nossos pensamentos, nossas crenças, sentimentos, e sensações.

 

Estou ansiosa por criar,por conhecer novos rostos, por trocar vivências com a  comunidade do Jardim Nardini, de conhecer sua história, e tê-la eternizada não só em memória, mas em forma de arte e expressão.

 

É isso que espero deste projeto, que nos apropriemos de nosso lugar. E cheguemos mais perto do lugar que desejamos.

 

 Eliane Andrade.

 

Ps: Em breve mais informações sobre Realejo - O Lugar Que desejo, o novo projeto de montagem do Teatro Parabelo.

 

 

6

de

maio

O Que Eu Entendi Do Que O Parabelo Disse?

No último dia 24 de Abril, finalizamos a temporada do projeto “O que eu entendi do que o Parabelo disse?” no CEU Vila Atlântica. Ao longo do mês de abril foram realizadas 3 apresentações, com média de público de 20 a 40 pessoas cada.

Divulgação do projeto.

Programa - Cartaz: Divulgação do projeto.

 

 

Durante toda a temporada houve participação maciça dos usuários mais assíduos do CEU: As Crianças, tanto que no final do projeto algumas delas que assistiram a todas as apresentações, explicavam as regras do debate ao restante do público. Isso nos fez lembrar que em outras apresentações de “Fando e Lis – ou Mais uma História de Amor” foi imposto pela Gestão Cultural do CEU Vila Atlântica uma censura de 14 anos, mas que dessa vez – devido à ausência do CEU no acompanhamento do projeto – não houve censura, uma vez que entendemos que as cenas de violência e semi nudez apresentadas na peça não estão distantes da realidade dessas crianças.

 

A Gestão Cultural do CEU Vila Atlântica manteve-se distante da execução do projeto. Tínhamos contato apenas com o segurança que abria o espaço e o técnico de iluminação que sempre trazia a mesa de luz. Tal ausência se evidenciou na última apresentação quando algumas pessoas chegaram um pouco antes do horário, e teriam ficado na chuva, não fosse a preocupação de uma integrante do grupo em resolver o problema e acompanhá-los até uma área semi coberta, uma vez que não havia nenhum segurança próximo e a porta do Foyer estava trancada.

 

Em geral durante a divulgação que foi feita previamente nas escolas do entorno e na unidade escolar do CEU Vila Atlântica (visitas monitoradas), devido ao fato do projeto acontecer durante o horário de aula, encontramos resistência por parte de alguns professores e/ou coordenadores em relação ao mesmo, eles alegavam: “Cultura não faz parte do dia-a-dia deles, eles não vão querer ir!” ou “Esses alunos só gostam de GLS – Giz, Lousa e Sentar”. Mesmo assim, no dia 17/04, alunos da Unidade Escolar do CEU que estavam interessados em participar do projeto, se organizaram e convenceram uma professora. Neste dia a sala toda compareceu a apresentação.

 

As leituras do espetáculo feitas pelo público foram as mais diversas, mas sempre as pessoas relacionavam as questões de “Fando e Lis – ou Mais uma História de Amor”, com situações de seu cotidiano: amigos que brigam por causa de uma namorada, famílias que saem em busca de diversão, mas não entram num acordo e nunca encontram o Parque (associação à viagem que os personagens fazem rumo à Cidade de Tar); dependência mútua; falta de solidariedade e individualismo, entre outros*

Finalização do projeto

Foto: Finalização do projeto

 

 

“O que eu entendi do que o Parabelo disse?” foi um projeto de mediação teatral, através do qual dialogamos com o público, abrindo espaço para que manifestassem suas subjetividades e expressassem suas idéias sobre o espetáculo, expondo suas opiniões através de imagens artísticas, tornando a relação entre público e ator cada vez mais horizontal.

 

Entrar em contato novamente com a comunidade do CEU Vila Atlântica nos fez reafirmar o quanto uma ação de formação de público contínua é importante, para que as pessoas tenham contato com imagens, sons e sensações, que vão além do seu cotidiano, e que possam se reconhecer como criadoras. E exijam uma programação de qualidade no CEU, para que tenham assegurado o seu direito à cultura e lazer.

 

O projeto afirmou nossa condição de resistência, como grupo atuante em nossa comunidade, na busca pelo respeito aos moradores e pela valorização das manifestações artísticas da periferia.

 

* Vide vídeos: www.youtube.com.br/teatroparabelo

 

Por Thalita Duarte

 

19

de

abril

Brainstorm and happy birthday to you

Estreou no último sábado Abatedouro, um experimento cênico livre inspirado no texto Matadouro Municipal de Tennessee Williams. Entramos em contato com o texto pela primeira vez em 2004 e resolvemos tirá-lo da gaveta para, através dele, propormos um projeto de ocupação para o Espaço Teatro Parabelo.

Estreia "Abatedouro" no espaço Teatro Parabelo

Estreia "Abatedouro" no espaço Teatro Parabelo

 

 

A partir de núcleos abertos à participação da comunidade, entre Março e Abril, improvisamos lançando mão de elementos presentes na Estética do Oprimido, sistematizada por Boal e também do uso de mídia áudio visual. Nesse momento do processo, estamos experimentando a contaminação da dramaturgia através da colagem de outros textos – como por exemplo o uso de trechos do Livro de Jó,  de Luis Alberto de Abreu.

 

A estréia do experimento foi à primeira apresentação teatral  feita no Espaço Teatro Parabelo, e para nossa surpresa, contou com um a presença de um grande público –  não só em termos quantitativos mas, acima de tudo, qualitativos : pessoas interessadas em dialogar com a produção artística periférica de peito aberto, sem medo de ser provocada e de nos provocar, vide às inúmeras colocações feitas ao término da sessão.

 

“(…) Tem muitos focos!”, “(…) Na tv, vocês passam muitos exemplos de Abatedouro né? (…)”, “(…) Abram as janelas! (…)” , “(…) Pra que a corda? (…)”, “(…) É muita violência (…)”, “(…) Achei que a porta ia cair (…)”, “(…) Eu não sabia pra onde olhar (…)”, “(…) Não tem saída, só a arte (…)”, “(…) eu não levantei por que não dá pra mudar!(…)”, “(…) Me dá uma cópia do texto?(…)”, “(…) Muito boa à peça viu tio? Quando tem mais? (…)”, “(…) Eu não entendi a metáfora da gaiola (…)”, “(…) Fala de mudança (…)”, (…) Vocês tem o que dizer (…)” , “(…) Meu Deus! (…)”, (…) Vocês são jovens e tem força eu fiquei muito feliz de ter vindo aqui (…)”, “(…) Reinaldo Maia colocaria essa gaiola na cabeça (…)”.

 

Mesmo sendo um brainstorm com ares de ensaio geral, fiquei muito intrigrado com o estado em que o público estava – como se todos estivessem tentando organizar as peças de um quebra cabeças na busca de um sentido.

Estreia "Abatedouro" no Espaço Teatro Parabelo

Estreia "Abatedouro" no Espaço Teatro Parabelo

 

 

Por outro lado, ali estávamos nós, na véspera de mais um aniversário, constatando como dia após dia fazer do teatro uma arma de resistência faz cada vez mais sentido. Como um espaço modifica não só as condições e as relações de trabalho mas também a relação com o público – tudo ficou mais dialógico, menos tênis e mais freescoball, como diria Rubem Alves.

 

Outro aspecto que só ontem me dei conta é que ali em cena está tudo e todos que impregnaram o nosso jeito de fazer e pensar teatro – tudo ao mesmo tempo agora, mais uma vez, o brainstorm.

Acho que foi o Fernando Peixoto quem disse que os ensaios só começam de verdade quando as cortinas se abrem – concordo.

 

Por Diego Marques

 

 

 

18

de

abril

Sobre aqueles que não deviam ir e aqueles que vão ficar

Reinaldo Maia (1952- 2009)

Reinaldo Maia (1952- 2009)

Eu não sabia quem era Reinaldo Maia até o dia em que o mesmo se apresentou a mim – e o fez por meio do documentário “O Que é Teatro?”, no qual o dramaturgo fez a referida pergunta para alguns dos principais expoentes da cena teatral contemporânea e conseqüentemente para os espectadores do vídeo.

 

Na época  o Teatro Parabelo encontrava-se no inicio de uma articulação com outros jovens fazedores de teatro, de realidades próximas a nossa com o intuito de pensarmos em pra quem fazemos teatro, assim sendo, nos pareceu muito pertinente aprofundarmo-nos na reflexão lançando mão do vídeo produzido pelo Maia como provocação. Foi assim que nasceu a rede Chegança e também que conheci Reinaldo Maia – que para o meu espanto já nos conhecia.

 

Duas semanas antes de entrarmos em contato solicitando autorização para exibição do documentário, ele já havia publicado em seu Blog  a carta inaugural do movimento junto do seguinte comentário:

 

“A publicação do Manifesto do Chegança tem a intenção de abrir os olhos e as mentes dos participantes do Movimento de Teatro de Grupos de São Paulo assim como do Redemoinho para essas novas organizações que surgem reivindicando a cultura, em particular o Teatro, como um direito, mas ao invés de ficarem esperando de braços cruzados saem a luta para discutirem, produzirem e reivindicarem políticas públicas que contemple suas reivindicações. E diferentemente dos movimentos surgidos na cooperativa, esse está ligado a comunidades que não têm acesso ao bem simbólico e estão situados na “franja” da cidade. Isto é, sofrem todo tipo de excludência e de ausência do aparelho do Estado seja por parte do Município, do Estado e/ou da União. O fato de estarem ocupando um Céu, não quer dizer que têm uma vida cultural como todos os cidadão tem direito.”

 

E  se me espantei, não foi por razões egoicas. Espanta-me  a coerência  e a sensibilidade – o cara conseguiu ouvir aquilo que nós ainda não havíamos, de fato, gritado, e foi além, preocupou-se em fazer o que estava por ser dito, ouvido.

 

No último post de seu blog  ele dissertou:

 

“Dizia o Nietzche que –“ o outro lada da moeda da moral do senhor ainda é a moral do senhor”. Ele dizia isso para alertar ao escravo que, se desejava lutar contra o seu explorador, tinha de criar uma nova moral, não bastava apenas fazer o contrário para ser “verdadeiro”. Essa máxima nos faz pensar um pouco como se dá a luta política por parte daqueles que tem um fraco entendimento de sua prática”

 

E como bom sábio que foi, fez da sabedoria, atitude. Dedicou uma vida para nos alertar sobre a urgência de libertar o homem, o teatro (e o homem de teatro) da condição de mercadoria e voltarmos a sermos sujeitos de nossa história – foi o que aprendemos com algumas pessoas, dentre elas, o  Maia.

 

Hoje a rede Chegança não está burocraticamente tão organizada quanto aquela que chegou a trocar e-mails com o Dramaturgo – que,  por um capricho do cotidiano, não pode estar presente na mesa organizada pela rede. Entretanto, é inegável que as ações dos grupos que a compõe estão mais fortalecidas uma vez que a Cia Humbalada, o Teatro Parabelo e o Identidade Oculta, ao reduzirem-se a sua mínima grandeza  estão procurando (como o próprio frisou na citação acima) não “apenas fazer o contrário para ser verdadeiro” mas ao estreitarmos os laços do nosso teatro com o nosso local de origem, estamos buscando criar a nova moral, a nossa moral, preconizada  por Reinaldo Maia.

 

Digo isto, pois, penso que a melhor homenagem que qualquer fazedor de Teatro comprometido com o mesmo e com seu tempo espaço pode fazer ao dramaturgo do Folias, é não se dar por vencido, é resistir para que, o esforço daqueles como Reinaldo Maia, não tenha sido em vão, para que Rounets sejam extintas, Programas de Fomento Nacional ao Teatro sejam criados, para que espaços sejam inaugurados,  saraus sejam organizados, fomentos sejam concedidos a grupos das extremidades da metrópole pelo mérito artístico; sem que sejam questionados por  pseudos agentes culturais,  pseudos artistas engajados e sua corja.

 

Que não deixemos a lembrança de Maia ir, para que ela nos inspire a continuar.

 

Por Diego Marques

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16

de

abril

O Caminho do Abate

Às 06:00 horas ecoa o berrante; o som reverbera nas gorduras do meu corpo – ele não consegue levantar. O berrante continua a me dizer o que tenho que fazer, mas meu papo e meu bucho insistem em estrebuchar-se num lençol fétido. Não diferencio mais a buzina do mugido, sinto minha massa encefálica lentamente ser fatiada por um cortador de frios. Gordo, não consigo levantar-me, portanto, esparramo meu peso sob minhas patas tortas e cansadas. Já não caminho, arrasto-me ou sou arrastado, provavelmente aprendi a deixar-me arrastar.  Há alguns anos tenho sentido uma corda firme e grossa presa em alguma parte de mim. Talvez na cabeça, talvez no coração.

 

A corda dá um tranco. O berrante ordena. Subo no carro de boi. Alguns tentam manterem-se de pé, outros dormem. São muitos, milhares,  eu diria. Berrante. Todos grandes, gordos e inofensivos. Trânsito engarrafado. Bois. Berrante ensurdecedor. Pela vidraça vemos carnes penduradas em vitrines, estou certo de que não poderei comprar mais que 1ou dois 2 kg. Berrante zunindo. Meu pensamento é interrompido, uma vaca velha e suja me oferece uma lata de sangue de boi gaseificado. Minha boca saliva, o carro dá um tranco e a baba homogênea escorrega. O berrante ocupa todos os espaços vazios da cidade, do meu corpo.

 

O  cheiro de sangue invade minhas ventas. Confundo mugido e buzinas. O carro para. O berrante volta a dizer o que devo fazer. Os bois disparam. O berrante repete. A corda estica. Sono e náusea. Quase despenco no chão. Risadas. Machadadas. Trituradores. Laminas. Acordo. Eles tornam as coisas mais difíceis se você chega atrasado. Eles demoram a acabar com tudo.

 

Por Diego Marques

 

30

de

março

Um pouco de quântica

Para compor os àtomos de nossa matéria em transformação, a magia do teatro, vamos ao núcleo de cada uma destas partículas.

Desta vez, escolhemos Tennesse Williams e Augusto Boal para estimularem as reações químicas de nosso experimento teatral e daí surgiram os “Auto-móveis”

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

“Auto-móveis” é a denominação  dos núcleos em pesquisa, que irão gerar a matéria prima “Abatedouro” livre adaptação do texto “O Matadouro Municipal” de Tennessee Williams através dos recursos do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Estes núcleos destrincham o texto original a partir de uma leitura dramática e das técnicas do Teatro Jornal, Teatro Imagem, Teatro do invisível e Teatro Fórum.

Desse modo a união da energia de cada núcleo é direcionada para a criação de um produto final- matéria física e metafísica do teatro.

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

     

Da física temos: corpo, voz, imagem, texto, luz, som, sombra, suor, lágrima…

Da metafísica: idéias, conceitos, visões, debates, comunhões, sentimentos…

Declaramos assim, aberta a temporada de pesquisa e criação no Espaço Teatral Parabelo. E viva os prótons, elétrons, nêutrons e afins!

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Auto Movéis - núcleo experimental (2009)

Por Denise Rachel

26

de

março

A metrópole e o Teatro

Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

 

Espaço.  O Espaço agora existe, é palpavél, é concreto,  cheiro, cor, poeira, TABLADO! O sonho que irá gerar tantos outros possiveís e impossiveís. Talvez seja essa a natureza e a finalidade da arte teatral: tornar palpavél os sonhos.

 Enquanto isso, São paulo (DESGRAÇA!) Lá fora. Sim! ” (…) Isso aqui é uma, desculpa a palavra, desculpa você, você e você, mas São Paulo é uma DESGRAÇA! (…)”  palavras de desespero de um morador de rua, na madrugada de uma segunda feira pós show do Radiohead. “(…) Olha esse prédio por fora. Bonito né? Agora vai entrar nele, aí você ve a rachadura”  Palavras ecoando no viaduto Nove de Julho.

 Tantos paradoxos em um único local, tanto prédios, casas, construções com belas fachadas, mas todos rachados por dentro. O Mundo de aparências de Platão, o mundo de aparências segundo a filosofia oriental. O mundo de aparências dita e destrói regras, o mundo de aparências embala tudo a vácuo, esvaziando qualquer possibilidade de respirar. Um mundo congelado, triste, com sorrisos estampados e um olhar vazio - choro e ódio que não param de escorrer por dentro.

São Paulo é plástico, duro e cinzento - imperfeito.  Plástico aço, Plástico ácido. Recipiente quase inesgotavél de embalagens plácidas, quase ínuteis.

Leitura Dramática Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Leitura Dramática Inauguração do Espaço Teatro Parabelo

Diante disso, alcançar os sonhos se torna um ato heróico. Diante disso, o Teatro vem como uma busca de sentido e se faz sentido. Mesmo assim, será o Teatro a resposta para todos esses eventos? Poderá esse dissipar a paralísia? Irá atenuar o vazio que assombra nossos pensamentos diariamente?

Talvez Teatro, em tempos de guerra seja destruir com todas as forças a imensa e não tão distante fábrica de aparências, tomar de assalto os embaladores, bombardear as ruínas que ainda restam…

Por Denise Rachel

 

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